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O poder das ideias – Ampliando a visão sobre as organizações

Por 29 de abril de 2020 Nenhum comentário

Em nossa sociedade contemporânea há um grande embate ideológico sobre o papel dos Estados nacionais no desenvolvimento das nações. Alguns consideram que o papel do Estado é central e hegemônico. Outros, como eu, entendem que o Estado, apesar do papel essencial, deve ser o menor possível, ocupando-se da gestão macroeconômica para que haja uma economia saudável, e zelando, por meio de acordos internacionais, pela inserção do país nos negócios globais e pela segurança nacional. Nas relações com as organizações, o Estado deve atuar como regulador, oferecendo os estímulos necessários a um ambiente de concorrência leal.

Tendo o Estado um espaço mínimo necessário, o papel das organizações torna-se cada vez mais relevante, em particular o das empresas privadas, no desenvolvimento da sociedade como um todo. Assim, empresários, executivos e demais gestores de pessoas têm a responsabilidade ampliada. Suas decisões influenciam o destino dos indivíduos que vivem nesse universo, que gradualmente avança para além dos muros das companhias. Nesse atual contexto, com elevado grau de incerteza no cenário econômico nacional e internacional, é premente ampliar a visão sobre as organizações, buscando uma atuação dos líderes mais condizente com esse papel ampliado. Entretanto, ainda há pouca reflexão sobre o que é uma empresa e como nós a consideramos.

Assistimos durante as últimas décadas a uma relevante transformação na forma de se compreender as organizações. Desde a revolução industrial a visão mecanicista teve papel fundamental na estruturação e ordenação do universo empresarial. Por sua natureza objetiva e quantitativa, a revolução industrial possibilitou um enorme salto de produtividade nas fábricas e escritórios. Essa visão, que é muito adequada ao se tratar dos aspectos físicos e mecânicos dos objetos, como das máquinas, equipamentos e processos, tende a levar a uma compreensão estanque e fragmentada das demais dinâmicas que ocorrem numa organização e a considerar toda e qualquer coisa – independentemente se forem máquinas, plantas, animais ou empresas – como se fosse composta por engrenagens que quanto mais precisas e azeitadas melhor desempenho terá.

Mas, a partir da década de 1970, uma outra forma de se compreender as organizações aparece: a estruturação de uma visão sistêmica.  Ela surge pela constatação de que uma empresa é um todo complexo, formado por partes interdependentes. Percebe-se a relevância de se […] “ver” a empresa como um todo e entender como funcionam e se integram seus processos de obtenção, transformação e entrega (delivery) de seus serviços, produtos e informações ao mercado e, particularmente, aos seus clientes. Entender como se integram os processos internos e como eles se relacionam com o ambiente externo, como circulam as informações veiculadas através destes processos internos, desde seus pontos de origem, nos quais são geradas, até seus destinos, nos quais são utilizadas é uma característica de quem possui a competência visão sistêmica.

Também nessa década, e reforçando a visão sistêmica, surge uma visão biológica, em que se passa a perceber uma dimensão orgânica das empresas, como se elas fossem organismos vivos e seguissem padrões de desenvolvimento qualitativo pré-estabelecidos.

Em paralelo, outros teóricos organizacionais trouxeram uma perspectiva sutil (que alguns chamam de quântica e outros de espiritual), analisando as empresas de modo dinâmico, e não mais determinista, no qual aspectos não físicos têm papel organizador fundamental.

Na figura a seguir, podemos ver como as formas de compreender as organizações se posicionam e como entendemos que a perspectiva sutil abarca todas as demais visões. Importante é constatarmos que “cada uma delas carrega em si as limitações intrínsecas à sua natureza”.  Não há uma que seja mais “correta” que a outra, cada uma é adequada quando usada para compreender os fenômenos que lhe são pertinentes. O problema é quando utilizamos uma forma para buscar compreender algo do domínio de outra. Por exemplo, se quisermos compreender um aspecto orgânico usando somente as leis físicas da mecânica, incorreremos em simplificações grosseiras. O reverso também é verdadeiro, ou seja, se quisermos lidar com uma questão mecânica usando somente conceitos sutis, dificilmente teremos sucesso.Figura 1. Formas de se compreender as organizações.

Existe uma busca permanente de expansão da compreensão sobre as organizações. Quando as formas existentes não conseguem mais dar conta daquilo que se vivencia na realidade cotidiana é necessário adentrar em novos domínios, para então desenvolver novos conceitos que nos permitam compreender tal realidade. Tais visões convivem em nosso mundo acadêmico e empresarial, não havendo uma que seja hegemônica. Contudo, cada forma de compreensão implica um modo de encarar as necessidades e demandas das organizações e de lidar com os desafios cotidianos.

Muitos pensadores têm se empenhado em trazer novas perspectivas para compreender e administrar as empresas, mas de modo geral as organizações continuam sendo retratadas e gerenciadas como algo mecânico, com engrenagens e botões para as principais funções. Ou, quando muito, como resultante da interação das pessoas que a integram, porém sem uma compreensão precisa sobre o que está além disso, que é o que deve ser preservado. Existe a evidente carência de uma imagem organizadora do que são e como se mantêm e se desenvolvem as empresas. Por quê? Porque, com a crescente complexidade do mundo, o que até pouco tempo era satisfatório para a gestão das empresas não está dando respostas adequadas às necessidades da sociedade e do mercado.

Margaret Wheatley, teórica organizacional e escritora norte-americana, em seu livro Liderança e a nova ciência, ao questionar sobre como encaramos nossas empresas, responde que não as vemos como organismos vivos, mas sim como máquinas. Por causa disso, uma vez constituída determinada empresa, começa a surgir o receio de que tudo possa desmoronar. Dessa forma, para mantermos de pé o que arduamente criamos, nos fixamos “em estruturas, e as construímos fortes e complexas porque elas devem, assim acreditamos, conter as forças sombrias que ameaçam nos destruir”.  De fato, as máquinas estão sujeitas, como sistemas fechados, às leis da entropia, isto é, se desgastam com o uso e, por fim, param de funcionar. Mas organismos vivos tem outra dinâmica, adaptativa, decorrente de suas interações com o meio que os cerca. Eles se mantêm flexíveis para mudar e se desenvolver conforme as possibilidades oferecidas pelo contexto. Portanto, se diante do risco de uma empresa quebrar nossa reação for torná-la mais rígida, aumentando em demasia os controles, maior será a probabilidade de fracasso, pois isso restringirá a criatividade para a busca de soluções, assim como a autonomia de seus membros para reestruturá-la.

Na forma como trabalhamos a maneira de abordar as empresas procura levar em consideração as quatro formas de pensar: a perspectiva da Antroposofia (por compreender que o aspecto sutil tem papel organizador nas empresas), abarcando também a visão orgânica (por considerá-las como organismos vivos), a visão sistêmica (por entender que há uma interdependência entre seus componentes) e a visão mecânica (para lidar com seus aspectos tangíveis e concretos).  Para expressar tais perspectivas usaremos imagens e metáforas como uma forma de tangibilizar as distintas dinâmicas das organizações.

James Jeans, físico inglês, diz que “o universo começa a parecer mais como um grande pensamento do que uma grande máquina”.  Da mesma forma, consideramos que as empresas são ideias, e não simplesmente pessoas reunidas ou ativos ordenados de modo a serem produtivos. Ideias que, se bem desenvolvidas ou apreendidas por pessoas atentas às demandas do mundo, ganham densidade ao atraírem capital, matéria e outras pessoas, formando um círculo virtuoso de desenvolvimento.

Percebe-se a relevância das ideias ao se observar dois fenômenos organizacionais:

  1.  Franquia é um dos negócios que mais crescem no mundo todo, sendo responsável pela prestação de serviços de todo tipo e pela geração de milhares de empregos. O que se oferece quando se vende uma franquia é a formatação de conhecimentos relativos a todas as etapas de um negócio. Quem opta por comprar uma franquia, seja de uma cadeia de fast food, ou de uma rede de lavanderias, não está adquirindo algo físico e tangível, mas informações e conceitos que devidamente concatenados e continuamente atualizados reduzem os riscos e maximizam a possibilidade de sucesso de um empreendimento.
  2.  As empresas de maior destaque no atual cenário econômico – como Facebook (que é a maior rede social), Uber (que tem a maior rede de carros para transporte de passageiros), e Airbnb (que possui a maior rede de quartos para hospedagem) – são aquelas que praticamente não possuem ativos fixos, mas que partem de um novo conceito, o da economia compartilhada, como seu pilar central.

Assim, ser um empreendedor bem-sucedido é, sobretudo, ter a capacidade de se conectar àquilo que os alemães chamam de Zeitgeist, o espírito da época, e estruturar de modo competente negócios com ideias que tragam ao mercado produtos e serviços cuja hora tenha chegado.  Afinal, como diz o ditado, “não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo tenha chegado”.

Fonte:
Texto extraído e adaptado do livro Quintessência – Integrando Gestão e Governança de Rubens Gimael publicado pela Editora Senac em 2017

Rubens Gimael

Rubens Gimael

Autor, palestrante, consultor organizacional e coach de executivos. Graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP e em Psicologia pela UNESP/UNIP, com pós-graduação em Finanças pela PUC-RJ. Em processo contínuo de desenvolvimento fez também a Formação para Conselheiro de Administração pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa); Coaching in the Corporate Context pela SECA (USA) e Co-Active Coaching pelo The Coaches Training Institute (USA). Há 21 anos trabalha no desenvolvimento de executivos e de empresas, tendo sido executivo de bancos de investimentos e diretor de empresas de TV a Cabo. Atua desde 2005 pelo EcoSocial, atendendo empresas nacionais e multinacionais de diversos setores. É também membro do IBGC, professor do Insper e autor do livro Quintessência, integrando Gestão e Governança.

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