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Busca contínua por autoconhecimento – um mandamento para o líder

Por 1 de abril de 2020 Nenhum comentário

“Viver é afinar o instrumento

De dentro prá fora

De fora prá dentro

A toda hora, todo momento”

Serra do luar – Walter Franco

O principal instrumento de atuação do líder é ele mesmo, e não existe qualquer ferramenta que possa substituir este instrumento afinado em sua relação com o liderado. Então, surge a pergunta: o que é primordial e necessário para que se consiga uma correta afinação?

A primeira resposta que aparece é o autoconhecimento, o que eu considero também como a principal resposta. Não é possível fazer a afinação de um instrumento que não se conhece, sobretudo porque o líder não é um instrumento acabado, mas que pode e deve estar continuamente em um processo de desenvolvimento.

De forma direta, é o autoconhecimento que possibilita o desenvolvimento das competências do líder nos aspectos humanos e, de forma particular, em seus aspectos profissionais. Para que o líder conquiste o direito de colocar-se em frente a um liderado na posição de quem apoiará o seu processo de desenvolvimento, ele próprio tem de estar em desenvolvimento. Isto permitirá que o líder consiga colocar-se à disposição do liderado e ao mesmo tempo conter os seus conteúdos internos sem inconscientemente incorrer em mecanismos de poder e controle.

Em um processo autêntico de autoconhecimento, o ser humano depara-se com as suas virtudes e também com as suas sombras, o que pode trazer-lhe resistências na forma de dúvida, de descrença e de medo. Este confronto com nossas alegrias e com nossas dores é o que possibilita que conquistemos a sabedoria. Nesta jornada – que Carlos Drummond de Andrade chama de “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo”1 – será sempre importante que tenhamos transparência, confiança e protagonismo, buscando manter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”2.

Surgem então mais duas perguntas: quais são as diferentes dimensões em que o líder pode ampliar e aprofundar o conhecimento sobre si mesmo e de que forma isto pode ser conseguido.

As dimensões são incontáveis, e posso citar como pontos de partida a sua história de vida; com seus desafios, crises e conquistas; a sua identidade – com seus valores, propósitos e visão de futuro; a sua personalidade – com seus temperamentos, atitudes anímicas e tipo psicológico; e a sua relação com o ambiente e como este afeta a autoconfiança e a autoestima.

O mergulho corajoso em si mesmo é a forma essencial para o líder conseguir o autoconhecimento e “descobrir-se em suas próprias e inexploradas entranhas”3, mas nós não devemos deixar de dar importância às percepções externas sobre nós que podemos obter com as pessoas com quem convivemos e incorporar de forma carinhosa diferentes perspectivas em nossa análise. Além disso, alguns instrumentos e ferramentas – como o MBTI – podem ajudar o líder a perceber-se de forma estruturada e ampliada com a oportunidade para novas ações e comportamentos.

A busca contínua por autoconhecimento como base para o autodesenvolvimento genuíno e consistente deve ser um mandamento para o líder virtuoso que tem clareza de como o seu jeito de ser impacta a sua prática profissional.

 

Citações:

1 e 3 – O homem; as viagens – Carlos Drummond de Andrade

2 – Serra do luar – Walter Franco

Matias Klinke

Matias Klinke

Consultor organizacional, coach de executivos e aconselhador biográfico. Formado em engenharia elétrica pela Unicamp com pós-graduação em administração mercadológica e financeira pela FGV e MBA executivo internacional pela FIA-USP. Trinta anos de experiência em consultoria organizacional (PwC, EY, ADL e EcoSocial), tendo liderado projetos de transformação organizacional em empresas de diversos setores econômicos e em diversos países. Quatorze anos de experiência como coach de executivos, tendo atendido mais de duzentos profissionais. Coordenador e docente do programa de formação em aconselhamento biográfico.

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